José Leguelhé sentia umas pequenas dores de cabeça, não achou que era grave, mas seria interessante saber o porque das dores, afinal poderia ser algum outro problema do organismo. Então, ele procurou um posto de saúde próximo a sua casa, mas ficou sabendo que só poderia marcar a consulta quinze dias depois e que deveria chegar bem cedo. Passado os quinze dias lá se foi Leguelhé marcar sua consulta às sete horas da manhã. Não marcou. O posto de saúde estava mais para posto de doenças. Havia um amontoado de pessoas. Percebeu que chegar bem cedo não era suficiente e que algumas pessoas haviam chegado cedo da noite anterior, achou que assim marcaria sua consulta quinze dias depois. Foi que fez.
Os dias foram passando, sua dor de cabeça aumentando e lá se foi José Leguelhé marcar sua consulta às 6h da tarde do dia anterior. Tentou passar a noite conversando com seus companheiros, também enfermos, mas foi se cansando, posto que tinha passado o dia trabalhando dobrado para compensar o atraso da chegada ao trabalho no dia seguinte. Terminou por cochilar no banco de madeira da parte externa do posto, onde foi pego pelo sereno de quase toda a noite, acordou tossindo e espirrando. Amanheceu. Depois de toda confusão (muitas pessoas tentavam, e alguns conseguiam, furar a enorme fila desordenada) conseguiu marcar a consulta para quinze dias depois.
As coisas não estavam boas. Sua dor de cabeça não passava e agora se agravava com a tosse e os espirros, e ainda, dias antes da consulta começou a ter febre. Não trabalhava direito, não dormia direito, enfim, não tinha uma vida como a Constituição Federal dizia que ele tinha direito.
No dia da consulta, José Leguelhé estava oito quilos mais magro. O médico que o atendeu percebeu que aquele homem estava mal e tinha pressa, por isso, prescreveu-lhe uma bateria de exames e pediu-lhe que saísse da sala rapidamente.
José Leguelhé levou quinze dias para agendar os exames, quinze para receber o resultado, quinze para marcar nova consulta e quinze dias para ser consultado. Dois novos problemas vinham se juntar aos antigos: tinha insuficiência respiratória e se locomovia com muita dificuldade.
Ao ver o resultado dos exames seu médico ficou apavorado. Sugeriu sua imediata internação. O que teria acontecido àquele homem dez quilos mais magro que da última vez? Não esqueçamos que o resultado dos exames era de quarenta e cinco dias antes. Teria ele então piorado nesse período? Descobriu-se um coágulo no lado esquerdo de seu cérebro e a falência parcial de parcialmente todos os seus órgãos. Esses problemas poderiam ter sido tratados a base de remédios se tivessem sido constatados precocemente. Ainda bem que José Leguelhé teve a idéia de procurar o médico quando tinha pequenas dores de cabeça. Como ele estaria se não tivesse buscado tratamento? Seu caso era grave. Somente uma cirurgia poderia curá-lo. Operar o lado esquerdo de seu cérebro resolveria grande parte de seus problemas. Os demais (problemas) se recuperariam com um tratamento intensivo.
No mês que passou internado para a cirurgia, recuperou um pouco da vitalidade, engordou um pouco mais, até, que, contraiu uma infecção hospitalar. Isso liquidou um de seus rins, mas ainda havia uma chance: a cirurgia.
Chegou o dia da cirurgia. José Leguelhé, esperançoso e, por isso, ansioso, teve de ser sedado e encaminhado ao centro cirúrgico. Os médicos não fizeram nada direito, pelo contrario, fizeram a cirurgia no lado direito de seu cérebro. Nem parentes nem amigos reclamaram seu corpo. Então seu cadáver foi doado a faculdade de medicina da cidade. A esperança da melhora na saúde pública continua, muito mais pela falta de opção que pela própria esperança.
quarta-feira, 10 de março de 2010
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Ritmo e Sintaxe (resumo)
A diferença entre um conceito empírico e científico parte de um ponto comum, que é o objeto determinado. Contudo, pode-se assentar sobre esse, observações muito diferentes, como é, por exemplo, o que se pensa sobre o ritmo. Empiricamente o vemos como “alternância regular”, mas, O.Brik nos mostra que ele é “movimento particular”, isto é, “apresentação particular”.
O ritmo de um poema é anterior a sua disposição gráfica, pois, esta é seu resultado. O ritmo é movimento. Existem muitas maneiras de ler um poema, isto é, lhe impor um ritmo. Seja obedecendo a sua disposição nos versos, acentuando esta ou aquela palavra ou, ainda, obedecendo a sua pontuação. De acordo com o ritmo que impomos, podemos estar dando novos sentidos aos poemas. Porque o ritmo também pode gerar significados. Existem autores que dão mais valor aos temas dos poemas, outros a sua forma. Então cabe ao leitor perceber o que oferece ou pede o poema e proceder segundo seu juízo, observando que “sendo o verso a unidade rítmica e sintática primordial, é por ele que devemos começar o estudo da configuração rítmica e semântica”.
Existem outros dois conflitos que repousam sobre a linguagem poética: O primeiro é: o que mais importa num poema é sua forma ou seu conteúdo? Os dois. Pois o conteúdo presente no poema é igualmente formal. O segundo conflito é: o verso deve ser considerado por seu caráter semântico e sintático ou por seu som e ritmo? Também os dois. Porque o verso é um complexo lingüístico e como tal se vale de sua semântica e sintaxe além de aproveitar de elementos da língua falada, tais como som e ritmo.
O ritmo de um poema é anterior a sua disposição gráfica, pois, esta é seu resultado. O ritmo é movimento. Existem muitas maneiras de ler um poema, isto é, lhe impor um ritmo. Seja obedecendo a sua disposição nos versos, acentuando esta ou aquela palavra ou, ainda, obedecendo a sua pontuação. De acordo com o ritmo que impomos, podemos estar dando novos sentidos aos poemas. Porque o ritmo também pode gerar significados. Existem autores que dão mais valor aos temas dos poemas, outros a sua forma. Então cabe ao leitor perceber o que oferece ou pede o poema e proceder segundo seu juízo, observando que “sendo o verso a unidade rítmica e sintática primordial, é por ele que devemos começar o estudo da configuração rítmica e semântica”.
Existem outros dois conflitos que repousam sobre a linguagem poética: O primeiro é: o que mais importa num poema é sua forma ou seu conteúdo? Os dois. Pois o conteúdo presente no poema é igualmente formal. O segundo conflito é: o verso deve ser considerado por seu caráter semântico e sintático ou por seu som e ritmo? Também os dois. Porque o verso é um complexo lingüístico e como tal se vale de sua semântica e sintaxe além de aproveitar de elementos da língua falada, tais como som e ritmo.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Noção de construção (Resumo)
Em seu texto “Noção de construção”, J. (que não é de Joilson) Tynianov nos mostra que o estudo da literatura se pauta sobre dois elementos fundamentais: matéria e forma. Matéria, entendida como os vocábulos e palavras; forma, como conjunto de elementos estruturantes do texto.
Comumente, somos levados a interpretar as palavras como as conhecemos por nosso léxico prático ou por consultar o dicionário. Contudo, a palavra é heterogênea, é polissêmica e, por isso, ela pode ser empregada nas mais diversas concepções. O significado de uma palavra depende da forma de uma obra, como afirma Tynianov: “A noção de ‘material’ não extravasa os limites da forma, o material é igualmente formal; e é um erro confundí-lo com elementos exteriores à construção”.
As unidades de um texto literário são instáveis e quem as organiza são os signos. Por mais que um elemento venha a ferir nosso senso de coerência, precisamos considerar o signo que o rege.
A integridade da obra literária se dá no dinamismo de subordinar uns termos a outros e, ainda, os integrar e correlacionar. Sem isso é só automatismo. Amém? rsrsrs
ficou muito teórico, né?
mas, a partir do que tá aí a gente pode ir exemplificando.
Comumente, somos levados a interpretar as palavras como as conhecemos por nosso léxico prático ou por consultar o dicionário. Contudo, a palavra é heterogênea, é polissêmica e, por isso, ela pode ser empregada nas mais diversas concepções. O significado de uma palavra depende da forma de uma obra, como afirma Tynianov: “A noção de ‘material’ não extravasa os limites da forma, o material é igualmente formal; e é um erro confundí-lo com elementos exteriores à construção”.
As unidades de um texto literário são instáveis e quem as organiza são os signos. Por mais que um elemento venha a ferir nosso senso de coerência, precisamos considerar o signo que o rege.
A integridade da obra literária se dá no dinamismo de subordinar uns termos a outros e, ainda, os integrar e correlacionar. Sem isso é só automatismo. Amém? rsrsrs
ficou muito teórico, né?
mas, a partir do que tá aí a gente pode ir exemplificando.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Vamos abrir os trabalhos!!
''As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias''.
[clarice lispector]
(...)
"Mas os livros que em nossa vida entraram
[caetano veloso]
Pessoal, então está aberto nosso espaço
para discussões literárias, e para soltar o verbo, ou melhor, o verso!
Afinal, navegar é preciso. Viver não é preciso...
Boa viagem aos navegantes!
;*
"Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo".
[caetano veloso]
Pessoal, então está aberto nosso espaço
para discussões literárias, e para soltar o verbo, ou melhor, o verso!
Afinal, navegar é preciso. Viver não é preciso...
Boa viagem aos navegantes!
;*
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